ORFANATO PORTÁTIL - Marcelo Montenegro


ROCK´N´ROLL HIGH SCHOOL

Vi esses dias o documentário End of The Century - The Story of the Ramones. Caramba. Tem um verso de um poema meu bem antigo que é assim: “Capinar um Pink Floyd até chegar em Chuck Berry”. O que acontece é que esses arruaceiros do Queens salvaram o rock´n´roll. É emocionante ver a turnê que eles fizeram na Inglaterra em 1976. Todos os caras do Clash e Sex Pistols jogando pedrinhas nas vidraças do camarim do teatro que dava pra rua. Johnny Ramone solta um berro nervoso: “Qual é, porra?”. Joe Strummer – que conta a história no documentário – grita de volta que eles são membros de bandas inglesas e queriam entrar para conhecê-los. Todos fãs incondicionais dos Ramones. Quando conseguiram entrar, John Lyndon diz para Joey: “Você precisa nos ouvir. A gente é uma droga”.

 

Legs McNeil – criador do fanzine Punk e co-autor do livro Mate-me por favor – viajou junto nesta e nas primeiras turnês dos Ramones pelos EUA. Ele diz que era incrível. Em cada buraco que passavam, os caras deixavam um rastro de moleques saindo desesperados dos shows para montar suas bandas e reinventar suas vidas.

 

Posso descrever em detalhes o dia em que ouvi pela primeira vez Rocket to Rússia. Ouvir aquilo foi uma bagunça. Um misto entre algo que eu nunca tinha ouvido e uma betoneira sonora com tudo o que eu adorava – Chuck Berry, Little Richard e todo o primórdio do rock, mais histórias em quadrinhos e baladas de Johnny Rivers – de um jeito amplificado, contagiante, urgente, nervoso. Sei lá. Era meio que tudo isso mas também não era nada disso. Corte: quando vi pela primeira vez Medusa de Rayban, do Marião Bortolotto, em 1997, no CCSP, a sensação foi incrivelmente parecida. De certa forma, o Cemitério de Automóveis soava como os Ramones do teatro. Voltando: eu não montei uma banda. Mas virei um poeta que de vez em quando diz seus poemas com música. E sempre brinquei que meu sonho era um dia começar um poema como o Dee Dee Ramone: “one two three four”...

 

O documentário tem imagens fantásticas do começo deles no CBGB – talvez as maiores cenas de arquivo do CBGB que eu já tenha visto. Daí que fiquei com vontade de escrever sobre os Ramones, mas também sobre toda essa descoberta do punk rock – coincidentemente 1) minha amiga Luana Vignon me gravou recentemente um documentário do Joe Strummer; 2) conversava esses dias com o Paulo Scott sobre Botinada, documentário do Gastão; e 3), mais coincidência ainda – ou não –, acabo de me deparar com um belo texto que outro amigo, o Pierre, postou em seu blog. Na mosca, brother. Um trecho:  

    

“É difícil colocar em palavras o que foi descobrir os Ramones. Rocket to Russia é o disco. Como posso dizer isso? Bem, esses caras salvaram a minha vida. Agora tô velho, mas dia desses fui a galeria do rock e comprei uma camiseta dos caras. Eu sei, é ridículo chegar aos 40 e ainda sentir uma brasa da velha energia raivosa dentro do peito. Ok, ser um velho cão vira lata com uma camiseta preta de banda aos 40 é mais do que imaginei pro meu futuro, pode crer”. Pierre Masato



Escrito por marcelo montenegro às 09h23
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OTIMISMO de VOLTAIREProdução: Teatro da Curva> Adaptação e Direção: RALPH MAIZZA> No Bando: RICARDO GELLI; FLÁVIA TÁPIAS; DIDIO PERINI; MARIANA BLANSKI; TADEU PINHEIRO; CELSO MELEZ; LEANDRO D´ERRICO E WALTER "BATATA" FIGUEIREDO> Todas as sextas às 21H30> Espaço dos Parlapatões> PÇA ROOSVELT, 158



Escrito por marcelo montenegro às 11h43
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RÁPIDAS

Não é um paradoxo um escritor evitar publicar? Não é exatamente o que todo autor mais deseja no mundo? Como escreveu Emly Dickinson, "publicar é leiloar a alma humana". Adoro, amo escrever. Mas só para mim. Publicar é uma coisa perversa demais. Veja o que aconteceu no meu caso. Não tenho mais paz desde l950... Trecho da entrevista fictícia com J.D. Salinger que o amigo Rodrigo Garcia Lopes escreveu em 2005, a pedido do caderno Mais! da Folha de SP. Leia tudo aqui.

 

Acabo de ler isto: "Agora que um bom tempo já passou e me sinto mais sábio, acho que posso voltar à direção. Na próxima semana pretendo começar a trabalhar em um documentário sobre Keith Richards. Enquanto estou aqui, meu editor já está trabalhando em um arquivo gigantesco de gravações antigas e imagens de seus concertos. Estou muito emocionado que ele aceitou participar de meu projeto", afirmou Johnny Depp em entrevista. Tirei daqui.

 

 

Este livro está num ponto privilegiado no topo da lista do que quero-preciso ler em meio às quinze toneladas de trabalho com as quais estou envolvido. Por três motivos. 1) adoro livros sobre música. Um ano na vida dos Beatles e amigosClinton Heylin (Conrad) – e Uma temporada no inferno com os Rolling StonesRobert Greenfield (Zahar) – estão entre minhas leituras mais bacanas do ano passado. Sobretudo o primeiro, um dos maiores ensaios – ah esse coquetel poderoso entre texto fluido e profundidade de análise – sobre música e cultura pop que já li. 2) Paulo Henriques Britto é um dos poetas que mais gosto. Trovar Claro e Tarde, por exemplo, são grandes livros. Mas considero Macau um livro de poemas formidável. 3) desde o primeiro momento em que meu amigo Fábio Henriques Giorgio – como digo no meu texto Referências (in Brothers Cactus) – me apresentou à obra do cara, Sergio Sampaio foi um baque, uma iluminação. O livro faz parte da coleção Língua Cantada da editora Língua Geral

 

 

E nesta quinta-feira, em São Luís (MA), Celso Borges lança livro novo. Grande Celso. Abraço meu velho!



Escrito por marcelo montenegro às 09h11
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SEXTA-FEIRA EM SÃO CAETANO

Dentro da terceira edição do Festival ABC do Som, no Cidadão do Mundo, eu, Ademir Assunção e Chacal bamos hablar sobre música e literatura. Na seqüência o Ademir manda ver seus poemas numa versão mais enxuta – não estarão todos os músicos, mas a pancada é a mesma, pode ter certeza – do seu show Rebelião na Zona Fantasma. Tem ainda meus parceiros da Fábrica de Animais e mais uma porrada de coisas até domingo – de Kães Vadius a Inocentes. A entrada é um quilo de alimento e o Cidadão do Mundo fica bem ao lado da estação de trem de São Caetano. Mais informações aqui.



Escrito por marcelo montenegro às 11h45
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MIXED EMOTIONS

Meu amigo Paulo de Tharso. Acabei de ler seu texto sobre os poetas, a poesia e a estupidez do mundo. E também – olha só que coincidência – Gorilas de Sumatra, conto – conto? – do livro Memórias da Sauna Finlandesa do nosso amigo Marcelo Mirisola dedicado a você – a hora que a dona Marieta pergunta “Seu livro é do quê? De merda nenhuma mãe. Não serve pra nada”, puta-que-o-pariu Mirisola... dá vontade de chorar. Sabe De Tharso? Não sei. Mas acho que mesmo que não queiramos “firmar o nobre pacto entre o cosmos sangrento e a alma pura”, como escreveu Mario Faustino, mesmo que continuemos a escrever ou a não escrever mais poemas ou quaisquer palavras sobre a face da página com “a flauta das nossas próprias vértebras” (e há outro jeito, Vladimir?), mesmo que num repente nos sintamos amputados de tudo e de todos como Raskolnikovs do contra, continuaremos esses mesmos “gorilas melancólicos e nostálgicos” – Fausto Fawcett diz que “todo Jetson tem um Flintstone dentre de si” – e – por que não? – esses “românticos incorrigíveis” de sempre. Ah... Mirisola, ah... De Tharso... “A vaca já foi pro brejo e os burros já deram n´água”, como cantou Itamar Assumpção, mas, sei lá, gosto de lembrar também – por candura ou por pirraça – do grande sábio Jean Claude Van Dame: “retroceder nunca, render-se jamais”. Até porque no fim das contas, como confessou Kerouac, “a única coisa que temos para oferecer ao mundo é a nossa própria confusão”. Ah... Mario Faustino, “quanta violência, mas quanta ternura”.

 

 

 

No mais, Ademir Assunção avisa que Roberto Piva – que vai precisar passar por uma cirurgia na próstata e um cateterismo – já se encontra em melhores instalações que não o quarto coletivo em que estava no Hospital das Clínicas. Mas mesmo assim, e mais do que nunca, toda a ajuda e solidariedade ao poeta é mais que bem vinda. A quem interessar possa, anote e repasse:

 

Banco: Itaú

Agência: 0036

Conta: 20592-0

CPF: 565.802.828/00



Escrito por marcelo montenegro às 11h02
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UM ARTISTA ENGAJADO NO AMOR (em dois posts)

 

 

A cena se passa no Festival de Gramado de 2008, durante a primeira exibição do filme Juventude. Na história, Paulo José, Aderbal Freire Filho e Domingos Oliveira (o diretor) são três velhos amigos – todos setentões com um incrível senso de humor – que se reúnem num fim de semana para conversar sobre os amores, o espanto que permanece intacto diante da vida e o longo tempo de convivência. Exibido em competição, o filme emociona a plateia e é aplaudido mais de uma vez em cena aberta.

 

Em entrevista ao site do festival, logo após a sessão, Domingos brinca, citando uma frase da amiga Fernanda Montenegro: “A gente faz sempre a mesma coisa, mas de vez em quando o público gosta”. Juventude deixou Gramado com quatro Kikitos: Melhor Direção, Roteiro, Montagem e Prêmio Qualidade Artística conferido ao trio de protagonistas pela força da interpretação.

 

Quarenta anos antes, mais especificamente em 1966, nem todos gostaram da estreia de Domingos Oliveira no cinema. Todas as mulheres do mundo trazia a crônica de Paulo, (interpretado por um quase imberbe Paulo José) que decide trocar todas as mulheres do mundo por uma única – Maria Alice, imortalizada por Leila Diniz, com quem o jovem diretor havia sido casado por três anos. O filme foi um sucesso de público e crítica, levou doze dos dezoito prêmios em disputa no Festival de Brasília daquele ano e transformou Leila num arquétipo da mulher moderna à brasileira. Mas desagradou os defensores de uma arte engajada, que acusaram filme e autor com algumas das expressões mais comuns ao idioma da época: alienados e pequeno-burgueses.

 

Não é difícil entender. Num momento social e politicamente explosivo – assinalado, simbolicamente, pelo golpe militar de 1964 –, Domingos ousou fechar o foco numa comovente reflexão sobre o amor e os relacionamentos amorosos quando o que se esperava dos artistas (para usar uma metáfora cinematográfica) era uma espécie de visão histórica em grande angular, aquele tipo de lente usada para se obter um ângulo de cobertura superior ao campo de visão humano. Domingos, ao contrário, escolheu desde o começo acreditar no escritor russo Anton Tchecov: “Quanto mais particular, mais geral”.

 

Falando sobre Amores, seu filme de 2000, Domingos coloca as coisas nos seguintes termos, para toda e qualquer época: “Eu acho que a vida oscila o tempo todo entre o terror e a glória. Em qualquer pequeno ou grande momento, você olha e ele contém o terror, e contém a glória. Do terror, já se falou muito, e isso criou um mundo onde as alegrias da vida estão ocultas. Eu acho muito mais necessário hoje em dia falar da glória do que do terror. Já foi tudo muito denunciado. É preciso denunciar porque vale a pena viver”.

 

Amores

 

Domingos Oliveira tem feito “a mesma coisa” há 46 anos. Com “Somos todos do jardim da infância” (1963), sua primeira peça, também deixa claro sua forma de trabalho: o espetáculo foi montado na varanda do seu apartamento em Copacabana, o mesmo que também serviu como principal locação para “Todas as Mulheres do Mundo”. Além de alguns problemas com o síndico – para quem a peça seria dedicada, logo depois, quando passou a ser encenada em um teatro –, o autor antecipava, na prática, o slogan que criaria em 2005, durante seu filme Carreiras: “Baixo Orçamento e Alto Astral” (B.O.A.A.).

 

Nascido Domingos José Soares de Oliveira, em 1936, no bairro carioca de Botafogo, este escritor, dramaturgo, diretor, ator e espetáculo de si mesmo tem seu nome ligado a mais de uma centena de trabalhos espalhados entre o cinema, o teatro e a televisão. É um dos poucos autores brasileiros que possui obra relevante nos três meios.

 

Desde 2008, alguns lançamentos começaram a botar um pouco de ordem nessa produção. A Casa de Cinema de Porto Alegre colocou nas lojas uma caixa com vários extras – incluindo uma homenagem a Leila Diniz, morta em um desastre aéreo em 1972, aos 27 anos – e quatro dos filmes mais significativos do diretor: além de Todas as mulheres..., Edu Coração de Ouro (1968), o segundo filme, também com Paulo José e Leila Diniz, e os dois trabalhos que marcaram a volta ao cinema depois de quase 20 anos dedicados ao teatro, Amores e Separações.

 

Pouco antes, a Globo Filmes lançou o DVD de Ciranda, Cirandinha. Exibida em 1978, a série marcou época pela ousadia comportamental e pelo elenco de jovens talentos formado por Lucélia Santos, Denise Bandeira, Jorge Fernando e Fábio Júnior. Domingos integrou a equipe de criação ao lado de, entre outros, Daniel Filho e Lenita Plonczynski – então sua mulher e mãe de sua única filha, Maria Mariana.

 

Entre idas e vindas, foram cerca de 20 anos na Globo. Direta ou indiretamente, escrevendo ou dirigindo, Domingos participou de boa parte do que a emissora carioca fez para construir seu tão propalado – e hoje distante – “padrão de qualidade”: das séries Amizade Colorida, Carga Pesada às adaptações de Aplauso e Caso Especial.

 

A boa notícia é que a parte escrita, base de todo o seu trabalho, será reunida pela primeira vez. A editora Leya promete para este ano o lançamento de suas Obras Completas, em cinco volumes. Vai contemplar teatro, roteiros, reflexões, inéditos e relançamentos. Entre estes, o misto de ensaio filosófico e declaração de princípios Duas ou três coisas que sei dela, A Vida. Numa passagem do livro, o autor conta que se algum dia tiver que escrever sua biografia, terá de nomear os capítulos pelas mulheres que teve: “Sou aquilo que as mulheres que amei fizeram em mim”.



Escrito por marcelo montenegro às 11h46
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Juventude

 

Domingos gosta de dizer que está sempre 500 anos atrasado com relação a tudo o que ainda precisa dizer. Ele não para. Priscilla Rozenbaum – companheira há 27 anos, 35 peças e 5 filmes – vive brigando com ele. “Escrevo no mínimo das 10h às 14h com minha inestimável colaboradora e digitadora Tati Muniz. Uma graça”.

 

Domingos e Priscilla estão armando um novo programa no Canal Brasil: Coisas pelas quais vale a pena viver. Com estreia prevista para março, é a mais nova de uma série de bem sucedidas colaborações com o canal desde 2005. Sobre Priscilla, Domingos diz: “É a mulher da minha vida. Para o bem ou para o mal. Sua participação é incontrolável. Todos os dias pensamos em nos separar. O que atrapalha é a paixão. Desinteressada e altruísta”.

 

Pergunto se vista assim, em conjunto, sua obra pode ser considerada uma espécie de documento sobre o amor. “É um depoimento. Sobre o meu modo de amar. Acredito que falo sobre o que há de mais importante, que são as relações humanas. Particularmente da mais fecunda, do homem e da mulher”. Sobre a reunião de sua obra escrita, bem humorado, diz que caiu do céu. “Já estou ficando velho e vai ser ótimo poder usufruir da minha obra impressa. Além do que, creio, o conjunto fala mais do que a soma das unidades.”

 

Uma boa noção deste conjunto pôde ser vista na última edição do “É Tudo Verdade”, maior festival de documentários do país. Domingos, da atriz Maria Ribeiro, foi escolhido para abrir o festival. Durante os 72 minutos de duração, a plateia acompanha cenas de filmes, espetáculos, bastidores e principalmente as histórias e reflexões do retratado. Tudo faz de Domingos um personagem extremamente carismático: o jeito de falar, a combinação irresistível entre profundidade e leveza, o senso de humor, o compromisso tocante com a vida.

 

Comento com Domingos sobre uma fala – “Minha obra pode ser medíocre, mas minha visão de mundo é genial” – dita por ele no documentário. “É das minhas melhores frases demagógicas, pra ficar simpático. Assim como: ‘sou um autor sério que faz um grande esforço para parecer que não é’”.

 

Coração de Ouro

 

“Ver um filme é conhecer uma pessoa intimamente”, escreveu Domingos, recentemente, em seu blog – sim, ele tem um blog, e o atualiza com freqüência. Neste post, ele sugere quais as melhores entradas (“a porta da frente da casa do gigante”) para a obra de diretores como Fellini, Kubrick, Woody Allen, Bergman, todos entre suas maiores referências. “Cada um desses homens disse, sobre a vida, uma coisa que nenhum outro disse”.

 

Nesta era de ouro do cinismo, em que nada parece dar pé, os filmes de Domingos Oliveira conseguem o impensável. Como escreveu o curador Newton Cannito no programa de uma mostra realizada no Centro Cultural Banco do Brasil em 2004, “seus filmes são otimistas a partir do mundo real, são otimistas sem o falso “final feliz”. Domingos não cria mundos imaginários e seu otimismo não tem nada de alienado. Ao contrário, é uma alternativa revolucionária à falta de saída e ao pragmatismo do mundo capitalista contemporâneo”.

 

Podia encarar o desafio proposto por Domingos em seu blog imaginando qual a melhor entrada para a sua obra. Mas o fato é que assistir a qualquer um de seus filmes ou peças é conhecê-lo intimamente. Domingos sempre usou sua própria vida e visão de mundo como matéria prima para sua ficção. O que sempre encheu sua arte de vida. E de coisas que nenhum outro disse sobre ela.

 

Marcelo Montenegro

 

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Perfil de Domingos Oliveira que saiu na Vida Simples deste mês. Esta é uma versão um pouquinho maior (com o auxílio mais que luxuoso de Leandro Sarmatz, redator-chefe da revista, o texto chegou sem perdas ao tamanho necessário). No post abaixo, há uma espécie de “extras do DVD”: trechos da entrevista que fiz com o mestre e que não usei no texto.

Mais dois créditos: ao meu amigo Marião Bortolotto, que não só me pôs em contato com o Domingos como pegou com ele uma cópia de “Juventude” para eu re-assistir (o filme ainda não foi lançado em DVD). E também à minha sister Fernanda D´Umbra, que por conta de estar a dois anos encenando um espetáculo do homem – “Confissões das Mulheres de 30” – escreveu a meu pedido um depoimento sobre ele que eu não consegui encaixar no texto. Está também nos “extras” do post abaixo, junto com a entrevista.



Escrito por marcelo montenegro às 11h44
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DOMINGOS OLIVEIRA: EXTRAS

“A liberdade carioca. Foi essa brisa que bateu na minha vida quando montei um texto do Domingos Oliveira. Um homem que não hesita em dizer que "as mulheres são especialistas no amor, não para que negar". O que eu faço no palco é falar da vida de qualquer mulher que está na platéia, pelo filtro de um cara que faz de mim uma sedutora, porque ele é que é. Sem que elas saibam, eu sou um míssil de amor e confiança que o Domingos endereçou a elas. E o choque é intenso, porque o Domingos disse pra gente uma vez que o sexo, a violência, a nudez, nada disso ainda choca alguém no Teatro, mas a sinceridade. Essa sim, a dona do bom escândalo”. Fernanda D´Umbra

 

ENTREVISTA

Sua última passagem pela Globo foi em 1989 quando você colaborou com o Fantástico e adaptou “Todas as Mulheres do Mundo” com a Fernanda Torres e o Pedro Cardoso?

 

Não. Meu último trabalho foi a autoria da minissérie “Contos de Verão”, que eram minhas memórias do verão em Teresópolis. Eu ia dirigir, mas a Globo me informou que por causa do meu "excesso de autoralidade", preferia fazer com outro diretor. E passou a ação de Teresópolis (montanha) para Búzios (mar). Aí eu resolvi dar um tempo de Globo, faz 16 anos. Gostaria muito de voltar a trabalhar lá, se me dessem um trabalho digno.

 

Vejo que em todas as entrevistas você tem se referido ao “Inseparáveis”, seu próximo filme, como seu melhor roteiro. E que também gostaria de ter um orçamento maior desta vez. Você meio que se encheu do “baixo orçamento”?

 

Fiz muitos filmes baseados em peças, o que significa baixo orçamento. Adorei fazer isso. Basicamente porque os atores já conhecem os papéis, permitindo uma dedicação total à linguagem cinematográfica. “Inseparáveis” foi escrito diretamente para o cinema, não é possível fazê-lo no palco. Portanto, é mais caro. Tem cenas fora do Rio, cenas de festas, festivais de cinema... enfim, despesas. Em compensação, creio que tem toda a chance no mercado de arte mundial.

 

Em “Juventude”, o Antônio, seu personagem, diz que mudou seus hábitos. Por exemplo, que só bebe o primeiro whisky depois das 18h. E que deixou de ser boêmio, acorda cedo. Tem acontecido isso com você?

 

Porra, Marcelo, tem. Não consigo mais beber, não consigo. A barriga enche antes que eu fique bêbado. E o que interessa na bebida é a embriaguez. A embriaguez é que é nobre, necessária. E acordo junto com os passarinhos. Eles fazem um barulho danado. O que me alegra a alma, por isso acordo. De alegria.

 

Você está com dificuldade em encontrar financiamento para o filme? Numa entrevista ao site de Gramado, logo após a exibição de “Juventude”, você disse que tem os mesmos problemas de viabilização de um projeto de um jovem realizador. Em “Juventude”, aliás, tem um diálogo de vocês três tirando um sarro da coisa dos jovens acharem que a velhice traz sabedoria, que é uma grande mentira, a inquietação é a mesma.

 

É isso mesmo. A vida profissional no Brasil começa cada vez que recomeça. É matar o seu leão de cada dia. Porém, pensando bem, creio que a vida, ela mesma, também é da mesma forma. Recomeça todo o dia e será preciso matar seu leão antes que anoiteça.



Escrito por marcelo montenegro às 11h31
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VIVA ROBERTO PIVA!

Queria reler Vico mas não posso / queria ler

fico mas não fossa / queria tomar pico mas na

roça / queria virar mico sem a coça / queria

ouvir Chico lá na choça / queria ficar rico sem

a joça / queria ver o Angico na palhoça /

queria ser Cristo mas na nossa / queria ser

lírico na poça / queria mais um tico dessa

troça.

 

Roberto Piva



Escrito por marcelo montenegro às 11h08
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Escrito por marcelo montenegro às 10h34
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SÓCRATES, FERNANDO PESSOA, ETC

Na orelha de LSD-Nô, primeiro livro de poemas do Ademir Assunção, a Alice Ruiz escreveu que o Ademir, “por ser sério, é capaz do melhor humor”. Vale o mesmo para o doutor Sócrates. Ontem à noite, “que nem um besta com um prato de comida na mão”, como diriam Linari e os La Carne, peguei sem querer um Cartão Verde em homenagem a ele. Vladir Lemos, Xico Sá e Vitor Birner o entrevistavam com imagens de arquivo da TV Cultura com lances, gols e entrevistas – incluindo um Vox Populi feito pelo jogador logo que ele chegou ao Corinthians. Só mesmo uma abordagem inteligente e bem humorada pra dar conta de um gênio do futebol como o Magrão. Emocionante.

 

Nalgum ponto do ano passado, eu tinha acabado de assistir ao DVD do documentário “23 anos em 7 segundos”, sobre a conquista mitológica do título paulista de 1977 pelo Corinthians. Não deu nem 5 minutos e meu amigo Batata me liga. Mal reconheci a voz dele do outro lado da linha, já soltei: “não devia te falar isso, mas acabei de me emocionar com seu time”. Sou santista doente. Já disse que o primeiro poema que aprendi na vida foi “Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe”. Mas sou doente mesmo é por futebol. Uma pátria que vai, como também já escrevi por aqui, de Platini a Pita. Este último, meu maior ídolo no Santos (ao lado do Serginho Chulapa) desde os Meninos da Vila, primeiro time que me lembro inteiramente. Mas meu maior ídolo foi mesmo o Sócrates. Meu pai tem uma expressão que adoro que ele sempre usa – mas nunca em vão – quando se refere aos craques que viu jogar: “Esse cara jogava pra diabo”.

 

Lembro exatamente o momento em que, no fim da carreira, mas não da genialidade, o Doutor foi contratado pelo Santos. E acabei de achar esse vídeo no youtube com uma matéria do Globo Esporte sobre sua estréia, num amistoso contra o C.A. Cerro do Uruguai, na Vila Belmiro, em 1988. O Santos ganhou por 4x2 com gol dele e tudo. Mas o mais bonito é uma tabela primorosa que ele faz com o Mendonça entre o meio campo e a intermediária. E seu último lance no jogo no qual quase marca um gol de placa. Aqui. No final do Cartão Verde, perguntado se gostou da homenagem, ele disse, com uma baita dignidade, que achou meio exagerado. Grande cara.  

 

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Acabo de ler um grande texto do Nilo Oliveira em seu blog sobre um poema, “Se te queres matar”, do Fernando Pessoa. Começa assim: “Um sentimento que alguns chamam de "fenômeno" ou "comunicação" estética, mas que prefiro chamar de "cagaço": é quando, de repente, se percebe que as palavras vão além do que está escrito na página, ou que as tintas dispostas numa tela se abrem pra um mundo de significados ocultos ou inusitados. Não estou, de maneira nenhuma, falando de alegorias - mas daquilo que os grandes artistas deixam, de propósito, apenas insinuado, esboçado na obra, e que só se completa pela inteligência (ou "sensibilidade") do espectador”. Continua aqui.



Escrito por marcelo montenegro às 12h05
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AVATAR

Eu e o André Kitagawa estávamos conversando esses dias sobre o Jorge Coli, que escreve aos domingos, no caderno Mais, da Folha de SP. Gosto pra caramba do texto dele sempre com uma puta capacidade, como diz o Amós Oz, de “aconchegar conceitos”. Lendo jornais atrasados, me deparo com um texto seu sobre Avatar. Antes de passarmos uns dias na praia, eu e meus filhos fomos assistir. Foi minha primeira sessão em 3D. PUTA-QUE-O-PARIU. É simplesmente assombroso. Um playcenter dos olhos. Ao mesmo tempo em que bota o futuro (literalmente) no nosso nariz, James Cameron – que, concordo com o Jorge Coli, é “um lírico” – faz o cinema avançar tanto que debitadas as toneladas de inovações tecnológicas acaba chegando ao início. Ao primórdio de um Georges Meliés, por exemplo: PURO espetáculo e encantamento. Saí do cinema totalmente besta. Na praia eu tava contando para um amigo essa minha primeira aventura em 3D com a grandiloqüência que me é característica quando eu gosto de algo. Ele perguntou se minha análise incluía Avatar+3D, ou somente Avatar, o filme. Boa questão. Mas ao menos pra mim, a resposta é óbvia: impossível desvincular um do outro. Não precisa, mas poderia ir além não desvinculando ambos do Número 1 – com um delicioso milkshake de morango no lugar do refrigerante – que tracei no McDonnalds depois. O filme é uma baita aventura com a ingenuidade comovente da velha dupla caipira conceitual: “civilização corrompida versus pureza selvagem”. Tudo a ver a aproximação que o Jorge Coli fez do filme com a Iracema de José de Alencar. Mas prefiro ficar com esta outra: “Wagner vibraria diante dos recursos técnicos de Avatar. É o apogeu do espetáculo como ilusionismo absoluto. Ah, se suas valquírias pudessem cavalgar corcéis alados como se vê ali!”.



Escrito por marcelo montenegro às 17h34
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Impossível escapar dos enigmas. Que nem as pessoas sorriem nas cantinas quando elas chegam e sentam na mesa mas na hora de ir embora, quando as cadeiras arrastam no piso em uníssono e elas pegam os casacos e as coisas com um olhar carrancudo (todos no mesmo nível de semicarrancudice que é uma carrancudice especial de frustração porque a promessa feita pelo sorriso na chegada não se cumpriu ou se se cumpriu morreu em seguida) – e durante essa vida curta que tem a mesma qualidade cega inconsciente do orgasmo tudo acontece com as almas delas – é o GRANDE MOMENTO – a soma dos ápices dos relacionamentos humanos – dura um segundo – a mensagem vibratória a toda – mas também não é tão mística assim, é o amor e a sintonia num clarão. É assim que a gente que pira a noite de tudo quanto é jeito (surubas com quatro pessoas, conversas de três dias, viagens transcontinentais ininterruptas) também sente essa carrancudice temporária que nos avisa que é hora de ir dormir – nos lembra que dá para parar com isso – e nos lembra mais ainda que o momento é incapturável, já passou e se a gente dormir dá para reviver ele e fazer mil outras combinações e misturas lindas – embaralhar os velhos arquivos da alma num sono demente alucinado – Então as pessoas na cantina têm que olhar mas só até pegarem o chapéu delas, porque a carrancudice também é um sinal que elas mandam umas para as outras, um tipo de “Boa-noite senhoras” ou talvez uma gentileza interior do coração. Que tipo de amigo ia rir na cara dos amigos na hora de pegar o casaco fazendo uma carranca e de se curvar para ir embora? Esse gesto significa “Estamos indo embora dessa mesa que tinha prometido tanto – é nosso tributo aos tristes”. A carrancudice continua assim que alguém diz alguma coisa e eles se dirigem até a porta – rindo eles atiram ecos de volta à cena do desastre humano – e descem a rua no ar renovado que o mundo providencia. Ah, os corações loucos de todos nós!

 

Jack Kerouac, in Visions of Cody



Escrito por marcelo montenegro às 14h06
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RELAX NÃO É FAX NÃO

Dizem que eu sou pirex

Mas pirex não sou não (não, não)

Não dou rolê de rolex

Durex não sou relax

Relax não é fax não

Não é fax não (não, não)

Relax não é fax não

 

Dizem que eu sou sucex

Mas sucex não sou não (não, não)

Eu não nasci lá em Sussex

Nem sex nem fiat lux

Ser sexy não é fax não

Não é fax não (não, não)

Ser sexy não é fax não

 

Dizem que eu sou pirex

Mas pirex não sou não (não, não)

Não dou rolê de rolex

Durex não sou relax

Relax não é fax não

Não é fax não (não, não)

Relax não é fax não

 

Itamar Assumpção

http://www.youtube.com/watch?v=S6VD8QTyY4Q

 

Bom natal e bom ano novo a todos.



Escrito por marcelo montenegro às 13h04
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BEIJO NA BOCA

Manoel de Barros não está entre meus poetas preferidos. Tenho um único livro que também é o primeiro que li dele: “Livro sobre nada”. É um puta livro bonito. Depois fui ler outros, empolgado com a descoberta. Embora com muitos achados geniais de imagens, achei meio repetitivo – no mal sentido, digamos, porque em outro somos todos repetitivos. E por mais universal que seja não tem como. Vivo e sou apaixonado pelo universo urbano e a tendência é que eu não me encante por muito tempo com referências rurais. Não lembro se foi o Chacal ou o Celso Borges que disse uma vez que eu soava como uma espécie de Manoel de Barros urbano. Enquanto ele caça as pequenas coisas e inutilidades da vida rural, eu faço o mesmo com a vida urbana. Não sei, mas guardadas as proporções, até que faz sentido. Estava agora a pouco aqui em casa revirando umas coisas e dou de cara com a revista “Ontem choveu no futuro”, feita há alguns anos pelo hermano Douglas Diegues. E tem esse poema:

      

PÊSSEGO

Proust
Só de ouvir a voz de Albertine entrava em orgasmo.

Se diz que:
O olhar de voyeur tem condições de phalo (possui o que vê).
Mas é pelo tato
Que a ponte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o talo.
O tato é mais que o ver
É mais que o ouvir
É mais que o cheirar.
É pelo beijo que o amor se edifica.
É no calor da boca
Que o alarme da alma grita.
E se abre docemente
Como um pêssego de Deus.

 

Manoel de Barros

 

Lembrei de “Beijo na boca”, música do primeiro disco do Itamar Assumpção (“Tudo que eu podia fazer eu já fiz/ No entanto você nem se toca/ Ainda diz que a vida não é nada mais/ Que um beijo na boca”). Claro, o sexo. Mas beijar a mulher que você ama na boca é algo memorável. Os beijos que deu nas mulheres da sua vida. Os primeiros beijos em cada uma delas. Não só os primeiros. Bons beijos na boca são inexplicáveis. Uma antologia de frios na barriga. Lembro de um verso bonito para caralho do Joca Reiners Terron: “Certos tipos de amor deveriam se tornar um sabor de sorvete”. Também da maior definição de beijo que conheço, na genial “Imagens”, de Walzinho e Orestes Barbosa, gravada por Jards Macalé em “Aprender a Nadar”: “O beijo é fósforo aceso/ Na palha seca do amor/ Porém foi o teu desprezo/ Que me fez compositor”.



Escrito por marcelo montenegro às 12h59
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