ORFANATO PORTÁTIL - Marcelo Montenegro


HOJE

 

Se caras como Cartola e Nelson Cavaquinho fossem americanos, dariam belos bluesmans. E vice-versa – para o samba – se as cegonhas largassem alguns pioneiros do blues nos morros cariocas. E se tem um cara que faz isso valer perfeitamente é o Renato Fernandes, vocalista/letrista dos Bêbados Habilidosos. Grande cara. Puta compositor. A analogia foi confirmada quando o conheci. Soube que ele gosta de Nelson Cavaquinho e Cartola. E de Chico Buarque. O “malandro na praça outra vez/ caminhando na ponta dos pés/ como quem pisa nos corações/ que rolaram dos cabarés...” do Chico é homenageado no “eu vivo na noite/ eu sei como ela é/ eu sou o rei/ o rei da ralé” do Renato. 

 

Em 2003 o Cemitério de Automóveis teve sede na Bela Vista. Tinha o teatro embaixo e um bar legal pra caramba em cima. Foi ali – não esqueço do Mário botando o CD e dizendo “ouve isso” – que escutei e vi um show dos Bêbados Habilidosos pela primeira vez.

 

Isso pra dizer que no Juke Joint a Saco de Ratos – que conta com o Fábio Brum, ex-guitarrista dos Bêbados –, fará uma homenagem imperdível ao Renato – saiba mais aqui – que, em alguma quebrada de Campo Grande, deve estar feliz pra caramba ao mesmo tempo em que, com a mão empunhando um copo de conhaque, ou um microfone, ou, provavelmente, ambos, deve, discretamente, desconversar com um “pô, legal” quando alguém vier lhe falar disso.   

Brum, Marião e Watanabe em formação "econômica" da Saco de Ratos. O show de hoje conta ainda com o Pagotto no baixo, Rick Vechione na bateria e participação de Flávio Vajman na gaita.

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E hoje tem ainda:

 

1) Lançamento do livro Acordados, da Ana Rüshe, dentro do projeto Teatro Livro, a partir das 20h00, no Espaço dos Satyros, Praça Roosevelt. Rola outro amanhã, na Feira Moderna, Vila Madalena (a partir das 14h). Ficha completa aqui ou aqui.

 

2) Noite de Literatura Sadomasoquista com Glauco Mattoso e Antonio Vicente Pietroforte no Clube Dominna (Rua Euclides Pacheco 986, Tatuapé, a partir das 23h): o Glauco autografa Faca Cega e Aranha Punk, seus mais recentes livros de poesia, e o Vicente, Amsterdã SM e O Retrato do Artista enquanto Foge.

 

3) Natimorto, à meia-noite, nos Parlapatões. Leia aqui um belo texto do meu amigo e grande ator Nelson Peres, que esteve na reestréia da peça semana passada.  



Escrito por marcelo montenegro às 13h26
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CARPINTARIA REVISiTED

 

Cabe à poesia, como diria Lobo Antunes, 

“despentear a prosa”. Dissolver-se,

nela, engenhosa, anfíbia, como sal

de frutas no estômago dos contos.

 

Quanto à prosa – entre feiras do livro

e fichas de pôquer – tirar da poesia

seus óculos de ópera, até que uma

jogue fora a chave da algema da outra.

 

Ah Roman Jakobson, bebaço,

nas estrias do texto. Porque

como o esgoto despeja no mar

a cidade vomitada – ou seja, linguagem

 

que recai sobre si mesma –

solto agora um romancista dentro

do poema. E o lanterninha

da página. Que o mais é cinema.



Escrito por marcelo montenegro às 13h47
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estabanados aprendizes dos feiticeiros

– para Batata e Negão

 

 

Nem sempre atrás de algum tipo de encrenca.

Distraídos de headphone e falando alto

em gigantescas lojas de discos. Juntando

os cascos vazios e os últimos trocados.

Tramando curtições e pequenos crimes,

trocando de assunto. Na esquina de baixo

dos fatos. Estabanados aprendizes dos feiticeiros.

Dançando pulando desgovernando o barco.

Caindo fora como velhos David Banner´s,

contemporâneos de cada estilhaço.

Furtando taças de vernissages,

bebendo vinho em copos de plástico.

 

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Este poema está no Orfanato Portátil. Como escreveu o Paulo Scott, “blog é ponto de venda”. Então deixa eu reforçar que o Bactéria adquiriu alguns exemplares do Orfanato, que a Chris, editora da Atrito Art, resgatou de consignações antigas etc. Então o que estava esgotado ganhou uma pequena sobrevida. Informações aqui 



Escrito por marcelo montenegro às 11h42
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DA SÉRIE GRANDES FIGURAS

a vida é/ sem medida/ e isto/ é rigor

 

Duda Machado

 

 

Cinema de Invenção, do Jairo Ferreira, é um puta livro. Desses que costumam chamar de “obras de referência”. Durante muito tempo eu adorava os filmes que o Jairo citava e analisava com uma escrita pessoal, oswaldiana, apaixonada e telegráfica sem, no entanto, tê-los visto. Quando, aos poucos, consegui assistir a grande parte dos filmes dali, dificílimos de serem exibidos, gostei de poucos, muito poucos. Mas não importa. O livro é brilhante, poético e contundente, entre “alucinações vikings” – Jairo era um esteta, acima de tudo – e não a história, mas a fábula de toda uma geração, a da boca do lixo paulistana, verdadeira aventura intelectual de inventores – no livro ele transpõe os preceitos do Pound da literatura para o cinema e deste para a vida.  

 

Tive oportunidade de conversar isso tudo com o próprio Jairo quando o conheci, numa oficina de Super-8 na Funarte, em meados dos 90. Ficamos amigos, escrevi um perfil dele para um fanzine que eu fazia na época com o Marcelo Capanema, o Ruptura, além de entrevistá-lo num programa que mantive durante dois anos na Rádio Vitrola. Não é mera coincidência o fato do mesmo grupo que levava a rádio na raça – Robson Timóteo, Piti etc. – ser o mesmo que hoje leva, também na raça, o Cidadão do Mundo, sofisticação demais para uma cidade do ponto de vista cultural imbecil como São Caetano. Também não é coincidência que funcione hoje no Cidadão o CineClube Jairo Ferreira. 

 

O Jairo dizia que eu era o “Roberto Piva dos anos 90”. Ele usava a toda hora essas hipérboles. Do tipo “Sinhô é o Homero do samba”. Eu retrucava dizendo que ele era o “Bazin da Baixada do Glicério”. Quando o entrevistei na rádio ele levou um roteirinho, com tópicos da sua vida, que a toda hora botava em ação (O Batata filmando tudo, desde quando fomos buscá-lo em casa. A idéia é um dia reunir essas imagens num curta em homenagem a ele). Por exemplo: às vezes, do nada, ele interrompia uma pergunta minha com uma narração radiofônica, estilo "O Bandido da Luz Vermelha": “8 anos de idade: disco voador na Vila Carrão”.

 

O Jairo tinha uma visão única – místico-concretista – do cinema. Ao lado do Ivan Cardoso foi precursor do cinema experimental em Super-8. Escreveu inúmeros roteiros – dentre eles O Pornógrafo, do João Callegaro. Seu primeiro filme, com fotografia do amigo Carlos Reinchenbach, foi A Via Sacra, em parceria com o legendário Orlando Parolini que numa das “paranóias de 68” picotou todos os rolos. Coordenou o Cineclube Dom Vidal. Escrevia críticas desde pelo menos 1966 quando ingressou no São Paulo Shinbum, jornal voltado para a colônia japonesa paulistana. Foi crítico da Folha de São Paulo (1976-1980) além de colaborar para inúmeras publicações como Jornal da Tarde, Cine Imaginário e Estadão. No Shinbum o Jairo brincava ser o único crítico de cinema que tinha seus textos estampados na primeira página (como todos sabem, jornal japonês é lido de trás pra frente). 

 

Na oficina de Super-8, um dia ele chegou com um balde, desses antigos, de lata, e sem falar nada o bateu com tudo em cima da mesa. Tinha um adesivo colado: “A panela do diabo”. Disse que ainda não tinha recebido porra nenhuma da Funarte e pediu pra gente jogar umas moedas ou o que quer que fosse lá dentro. Vários abandonaram o curso – principalmente os que foram em busca de uma oficina realmente prática, do tipo aprender a pilotar uma câmera de Super-8, revelar etc. Eu estava lá para isso também, mas não fui embora. Já tinha lido Cinema de Invenção e queria saber até onde aquele cara ia. Evidentemente ele não tinha a menor didática – e muito menos saco – pra dar uma oficina. Fiquei sabendo depois que foi seu amigo Márcio Souza que armou o lance, já que o Jairo estava em dificuldades financeiras, que, pude constatar também, era uma constante na sua vida.      

 

Imagens que guardo dos seus filmes: 1) o Arnaldo Jabor sendo empurrado na piscina em Horror Palace Hotel, registro do Festival do Filme de Horror Brasileiro que rolou simultaneamente ao Festival de Brasília de 1978. Uma espécie de invasão bárbara à seriedade do festival oficial com o Sganzerla como uma espécie de entrevistador. 2) o Jairo falando algo sobre estética, no Vampiro da Cinemateca. Ele está de perfil, com uma placa de sinalização de trânsito fixada na parede, de frente pra ele só que apontando para o lado oposto ao que está virado. 3) no mesmo filme, o Orlando Parolini, de terno e gravata, dizendo “um poema de sua autoria”. Em determinado momento o áudio começa a falhar, dando lugar – sem cortar a imagem do Parolini – à voz distorcida do próprio Jairo dizendo algo do tipo: “o som está com problema porque a Kodak diminuiu a banda sonora dos filmes: FILHOS DA PUTA!”.    

A última vez que o encontrei o alcoolismo tinha se intensificado e havia no cara um misto de revolta e tristeza agressiva, sei lá. Ninguém sabe o tamanho do estrago que cada um leva dentro de si. Grande cara, um inventor nato – só alguém como o Jairo, que era fã do Aleister Crowley, pra ter visto um disco voador na Vila Carrão – que seja nos filmes seja nos textos fundiu, com rigor e paixão, o cinema à própria vida . Dizia que metalinguagem era “a consciência do beco sem saída”.

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Jairo Ferreira em still de Audácia, de Carlos Reichenbach

 

 

Uma palhinha do texto Godard nunca passou fome?, publicado em 06/08/1970, retirado de Críticas de Jairo Ferreira – Os anos do São Paulo Shinbun, organizado por Alessandro Gamo:

 

“O filme em questão é Duas ou Três Coisas que Eu sei sobre Ela (Cine Bretagne). Um dos filmes mais chatos do diretor mais chato do cinema. Márcio Souza esculhambando Godard: “Pensando bem, o problema do Godard é que ele não tem senso de humor”. Exato. Não adianta ter aquele QI, embora, numa certa dose, seu grande mérito tenha sido a invenção do antiespetáculo cinematográfico ou a objetividade total. Um personagem do filme: “Em cinema não se pode falar em franqueza” (...) Não há análise a se fazer de Duas ou Três Coisas, que já é uma auto-análise, a metalinguagem, e muito menos crítica a se fazer de uma autocrítica. Esse jogo de espelhos tão ao gosto de Décio Pignatari é, de fato, uma brincadeira ou exercício intelectual irritante demais para quem está passando fome”.

 

“(...) Dez vezes ou mais aparece no filme a cartela IDÉIAS, prova da inteligência do diretor, não raro chamado de maior revolucionário do cinema moderno com idéias avançadas ainda preso a um desgraçado cartesianismo que é quase típico da França. É o mesmo problema do Nietzsche, que dando seu passo a frente caiu numa nova formulação do bem e do mal, aliás, superado pelo grande filme que é Meu Ódio será tua Herança. Pierrot Le Fou era libertário porque se inspirava em Rimbaud e Week End idem porque volta a Lautreamont. De fato, Godard, os limites de nosso mundo são os da nossa linguagem”.

 

NOTAS

 

1) Amanhã, às 17h, passa O Guru e os Guris, primeiro filme do Jairo, na Mostra Clássicos e Raros do nosso Cinema, do CCBB.  2) Quinta-feira, 17/01, às 15h, passa o absurdo Hitler III Mundo, do Agripino, autor do genial Panamérica. Conheci esse filme pelo Cinema de Invenção. A cena do Jô Soares de Samurai lotando uma Kombi de mendigos pra despejar no centro de São Paulo é indescritível. 3) O engraçado é que o Jairo (diferente de mim) gostava do Godard.



Escrito por marcelo montenegro às 13h24
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Praça Roosevelt por Paulo Stocker

 

Ontem saiu um especial na Revista da Folha com “escritores estreantes (alguns nem tanto) e blogueiros” cuja pauta era escrever algo sobre a cidade de São Paulo com 100 palavras. Participo junto com o Kitagawa, a Bruna Beber, o Marcelino Freire etc. Engraçado foi ler, na matéria de abertura (lembrei das “tias culturais” do Gombrowicz, hehe, sacanagem), diagnósticos “totalizantes” de acadêmicos a partir de textinhos de 100 palavras feitos sob encomenda. Lógico, eles estão no papel deles, todo mundo escreveu o que tava a fim de escrever e é isso. Escrevi baseado no meu caminho mais constante de volta pra casa, meio bêbado, de madrugada, a cabeça cozinhando as conversas, gerando idéias – “projetos projetos projetos” como diria o Oswald de Andrade – que nunca lembro no dia seguinte. O nome é Cidade Dentro:

 

Um carro é ligado na madrugada. Praça Roosevelt, Nestor Pestana, Consolação. Tenta rasgar o plástico de um CD em frente à Sé, algo passa pela sua cabeça como o trânsito é passado por uma ambulância, essa compulsão pelo encarte das coisas, a noite esticando suas carreiras de faróis nas marginais. Mas não agora. Avenida do Estado vazia. Pouco antes das Juntas Provisórias, abre a garagem pensando quais músculos da humanidade se movem nas duas janelas acesas do prédio, canetas que falham ao lado do telefone, esfihas que sobram nas lanchonetes que fecham, a cara de quem acorda sem saber aonde.



Escrito por marcelo montenegro às 11h56
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TRÊS ASSUNTOS

Mercearia: Scott, eu, Paulão, Marião, Bactéria, Pierre e Marquinhos ao fundo.

 

O brother Paulo Scott embarcou no Amores Expressos. Destino: literatura. E o grande Chacal tece ótimas observações, tinindo trincando, a respeito de algo em que é mestre: poesia e música, palavra e ruído, aqui. Entendo o que o Chacal diz. Quando um cara – por conta do Popular de Ruído e Literatura – veio me entrevistar no Sesc Consolação sobre como seria minha apresentação e do Fábio Brum, disse a ele que era tudo ensaiado. Vi certa indignação no seu rosto, claro. Ele esperava que eu dissesse que era tudo um grande improviso. Não, não é. Eu e o Brum, até por conta de fazermos esse trabalho há bastante tempo, estamos suficientemente entrosados para improvisar, sim. Mas partimos, sempre, de uma estrutura previamente acertada, escrita, anotada, nem que seja meia hora antes.

Como já disse em post antigo – “Técnica, emoção” – eu trabalho com exatidão o tempo todo. Escrevo todo dia. Quando não estou escrevendo invariavelmente estou pensando em como transformar em linguagem determinada observação ou sentimento. A cabeça não pára, é uma desgraça. Mas mesmo escrevendo todo dia e pensando nisso o tempo todo eu demoro pra ter algo que eu considere pronto. É um puta trampo pra mim. Difícil, prazeroso, geométrico. Como o Willian Holden disse uma vez para o Tony Curtis: “em cinema temos que nos esforçar muito para parecermos naturais”.

 

Ontem eu o Marião e o Pierre conversávamos sobre a entrevista do Marlon Brando na Rolling Stone – que, diferente deles, não li ainda – e a conversa em determinado momento descambou para repórteres cujas redações definem o “subtexto” da matéria antes do, digamos, “trabalho de campo”. Pouco importa o que o entrevistado vai dizer. Tudo deverá ser encaixado nesse “subtexto” e não o contrário. Qualquer pensamento do entrevistado que não caiba nessa “pré-definição” deixa a reportagem perdida e, claro, é descartado na edição. 



Escrito por marcelo montenegro às 15h43
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