ORFANATO PORTÁTIL - Marcelo Montenegro


HOJE



Escrito por marcelo montenegro às 10h57
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Tem um texto do Lester Bangs, no Reações Psicóticas, em que ele conta o que estava fazendo quando soube que o Elvis morreu. Minha mãe tinha ido visitar uma amiga que havia trabalhado com ela, alguns anos antes, nas Lojas Americanas. Ela me levou junto. Enquanto elas conversavam na cozinha, fiquei o tempo todo, em silêncio, vendo reportagens sobre o Elvis na TV preto e branco da sala. Quando o Santos perdeu o título brasileiro para o Flamengo, em 1983, à noite meus pais levaram eu e meu irmão para um daqueles parques de diversão que existiam na Praia Grande naquela época. Na barraca de tiros de bazuca com bolas de meia, meu irmão derrubou mais latinhas que eu. Pouco depois, antes de comprar o ticket pro Trem Fantasma, eu desandei a chorar. Minha mãe achava que era por causa do tiro ao alvo, mas meu pai entendeu – tínhamos assistido ao jogo juntos, à tarde – e, sem falar nada sobre o que ele tinha entendido, disse que era só me deixar em paz, não era nada, já ia passar. O que nem meu pai, nem minha mãe e muito menos eu, então, entendemos, é que foi justamente ali, naquele exato instante, que um motivo, digamos, periférico, me apresentou à tristeza pura e simples. Aquela larga, como diria Gonçalo Tavares, intransitiva, que não precisa de motivo nem remetente, que está “gudada”, como disse uma vez o Gustavo, meu filho mais velho. Um dia liguei pra conversar com o Batata e sua mãe atendeu. Com a voz visivelmente chocada, ela perguntou se eu não tava vendo. “Vendo o quê dona Wilma?”. Liguei a TV a tempo de ver o segundo avião bater de cara com as Torres Gêmeas e o apresentador demorar a entender – e eu menos ainda – que se tratava de um segundo ataque e não de uma reprise do primeiro. À noite, o Chris Daniels, que é americano e mora em Nova York, tradutor de poesia brasileira, hospedado na casa do meu amigo Ademir Assunção, tava ligando preocupado pra alguns amigos – vários deles trabalhavam e/ou moravam perto do World Trade Center. Eu e o Gustavo estávamos assistindo Zé Buscapé, deitados no chão da sala, quando ele começou a soluçar. “Pai, que é isso?”, ele me perguntou, cismado. Ele devia ter uns 3 anos. Expliquei que aquilo se chamava soluço e que daqui a pouco ele teria outro. Que veio no meio de um “como cê sabe?”. Começamos a rir. Ele ainda meio espantado por começar a entender que não tinha o menor controle sobre aquilo. Mas esse espanto foi virando pura risada. E a cada soluço a gente ria mais. Quando meu outro filho, o Murilo, nasceu, logo depois que a Kátia botou o peito na boca dele pela primeira vez e a enfermeira o levou de volta, saí do hospital e parei no boteco ao lado. A mulher que atendia tinha uma mancha preta enorme no rosto. Pedi café com leite e pão com manteiga. Na TV a Ana Maria Braga tava recebendo um coral de criancinhas. E elas começaram a cantar Primavera, do Cassiano. Era 23 de setembro, primeiro dia de primavera, não tinha me tocado nisso. Não falei nada, mas, por um segundo, tive vontade de conversar com aquela mulher, saber de onde tinha vindo aquela marca. Imaginei que ela pudesse gostar de contar, já que por pudor, ou sei lá o quê, ninguém jamais devia se atrever a tocar naquele assunto. Lembro que no último capítulo de Celebridade eu tava operando o som e a luz de O Homem que queria ser Rita Cadilac, do menino de kichute Márcio Américo, no teatro Alfredo Mesquita, na zona norte de SP. Na primeira vinda dos Rolling Stones eu tive que ser internado às pressas pra retirar o apêndice. Anteontem de manhã, no Leblon, eu e o Régis Trovão, entre risadas sobre a noite anterior – abraço Carcarah! – vimos as imagens do Barak Obama discursando em Chicago. Comentamos: “caralho, parece um show de rock”. Quando o Bergman – que fora o brilhante Morangos Silvestres, está longe de ser um dos meus cineastas preferidos – morreu, o Inácio Araújo escreveu na Folha de SP: “(...) a morte não era, no entanto, figura isolada em suas preocupações. Era parte de um mundo em que o homem é atirado por Deus para viver a aventura de ser único”. Ou como disse um diretor espanhol – infelizmente não lembro o nome – quando foi receber o prêmio num festival por seu filme: “Eu queria muito agradecer a Deus por isso, mas não acredito nele. Só acredito em Billy Wilder”.



Escrito por marcelo montenegro às 09h34
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ESTA SEMANA NO RJ

Amanhã à noite caio pro Rio de Janeiro. Amigos cariocas, portanto: a partir desta semana, duas peças do Marião Bortolotto: O Natimorto, baseado em livro do Lourenço Mutarelli, e Hotel Lancaster, montagem antológica com direção de Marcos Loureiro. A primeira no Teatro Leblon, pra onde vou, às terças e quartas. A segunda, com direito à apoio do Sebo do Bac, no SESC Copacabana, às quartas e quintas.

 



Escrito por marcelo montenegro às 16h19
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Semana passada, participei da Feira do Livro da cidade de Imperatriz (MA). Uma passagem que já teria valido, antes de tudo e como qualquer viagem, pelo velho papo do Cazuza: “não há promessas/ é só um novo lugar”. Por reencontrar os brothers Artur Gomes – gênio satírico-lírico da poesia falada – e Celso Borges. Por ter conhecido a Lilia Diniz, organizadora da parada, e o figuraça, nascido em Manaus, mas que vive em Brasília, Adeilton Lima. Aqui poderia dizer que a viagem inteira valeu pelo Adeilton me dizendo o Poema com Putas, do Marçal Aquino, que eu não conhecia e, puta merda, me emocionou. Estávamos na casa do Zeca Tocantins, poeta e compositor cujo sobrenome vem do rio que corta Imperatriz além de dividir os estados de Tocantins e Maranhão. Atravessamos o rio num barquinho e fomos comer um peixe na casa dele no sábado. Depois o Adeilton me deu seu CD onde ele fala além deste, poemas de Mário Quintana, Ferreira Gullar, João Cabral de Melo Neto, Fernando Pessoa, Garcia Lorca, Vinícius, tudo a seco, sem música, do caralho.

 

Acontece que afirmando isto eu taria sendo injusto com a viagem, já que quando ele me falou o poema, do nada, debaixo daquele sol, estávamos tomando cerveja e minha bermuda ainda pingava água porque tínhamos acabado de sair do rio. Acho que ficamos umas três horas lá dentro, entre um mergulho e outro, só com a cabeça pra fora da água dando risada e conversando uma dessas conversas que vão de Maiakovski ao caso Lindemberg/Eloá, do excesso de coentro nas comidas ao Windows Movie Maker, da Orquestra Tabajara à dicotomia Luxemburgo/Murici.

 

Na sexta à noite, cheguei do aeroporto e larguei minhas coisas no hotel. Noite abafada. Estavam todos num bar na beira do rio. O Sânzio fazia seu show e, bem na hora em que cheguei, ele cantava João do Vale – e lembrei que eu tava na terra deste Muddy Waters do sertão. Fico sabendo também que Che Guevara se instalou por ali durante uns dias antes de partir pra selva boliviana. Foi em Imperatriz que ele reuniu armamento e remédios. Alguns dizem que é lenda, mas tem uns velhinhos que juram que participaram de reuniões com ele apontando inclusive a casa onde ele teria dormido naqueles dias. Além disso, a cidade fica perto de Serra Pelada – no auge era um dos principais entrepostos do garimpo – e do Araguaia – tendo sofrido com algumas campanhas do exército quando este caçava os guerrilheiros.

 

Mas eu tava falando do Sânzio, que me acompanhou com sua guitarra/violão na minha leitura no sábado à noite e, à tarde, também tava com a gente no rio Tocantins. Naquela conversa falamos que era inconcebível um tocador de botecos ou de rodas e churrascos não passar por Belchior. Inconcebível. E cantamos todos – só com a cabeça pra fora da água – A Palo Seco. Essa música me arrepia até hoje (o Ednardo tem uma versão matadora dela). E não é que descubro no youtube mestre Belchior com os Los Hermanos no programa do Serginho Groisman? Como diria Itamar Assumpção, “peço perdão pela minha ignorância”, mas não sabia que os Los Hermanos cantavam A Palo Seco – e a julgar pelas ocorrências no youtube, faziam isso direto.

 

Vou te falar um negócio: gosto pra caralho de Belchior. Pra caralho. Um cabra que como disse o Bukowski sobre o Fante, “não tem medo da emoção”. Lembro uma vez quando ele tocou no teatro Paulo Machado de Carvalho, aqui em São Caetano. É um teatro desses antigos, de mil lugares, e deviam ter umas 30 pessoas na platéia. Fui sozinho. Hoje moro de novo em São Caetano, desde que o Murilo nasceu, há cinco anos, portanto. E moro nas costas desse teatro. O mesmo em que, com meus vinte e poucos anos, comprei o disco depois do show, espremi minha timidez e fui ao camarim pra ele autografar a capa.

 

No sábado de manhã, antes do rio Tocantins e das leituras, tomamos café – bolo de milho com manteiga e café com leite... que ressaca pára em pé depois disso? – ao som do seu Nenê, saxofonista que mora numa cidade vizinha. Ele é a cara do Luis Fernando Veríssimo, só que negro. E toca pra caralho. E quanta história e simpatia. Das orquestras da Rádio Nacional no RJ à sua formação erudita na UnB, passando de Espinha de Bacalhau, do Severino Araújo à música que deu origem ao hino nacional norte-americano com a naturalidade de quem sabe que, como dizia Charles Mingus, “complicar o simples é fácil; o difícil é transformar o complicado em simples”. Puta manhã agradável. Uma hora, logo depois dele mandar um Glenn Miller, lembrando e contando histórias do caralho sobre grandes bailes em lugares absurdos, pergunto o que mais ele gostava de música americana. Aí o cara manda Smoke Gets in your eyes. Só me restou segurar o choro.

 

O Jorge é um argentino maluco e muito engraçado. Ele tem 60 e poucos anos e nem sabe como foi parar "naquele fim de mundo” – palavras do próprio. Só sabe que passou 4 anos olhando pro teto, comendo quilos de tarjas pretíssimas, caiu fora da Argentina e rodou boa parte do litoral brasileiro morando um pouco em cada lugar. Não podia deixar Imperatriz sem falar dele, mesmo sem saber "como" falar dele. No sábado à noite, depois do fim do Festival, fomos pra um boteco e ele me disse que morava com uma mujer ali perto. E que apesar do saco um pouco cheio da calmaria, já tinha se cansado de andar. 40 anos de estrada, o cara não para quieto, elétrico, um personagem. Pode parecer truque pra fechar texto, mas o tocador deste boteco cantou essa música aqui, das minhas preferidas do mestre, que tá no disco que comprei há quase 20 anos no teatro aqui atrás de casa. Lembramos do papo à tarde no rio. Eu lembrei um pouco mais do que isso.



Escrito por marcelo montenegro às 15h06
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