BORIS SCHNAIDERMAN ETC
Foi em 2000. Eu tava terminando uma pós-graduação “latu-sensu” em literatura na PUC. Meu trabalho de conclusão era sobre “Agora é que são elas”, romance de Paulo Leminski. E eu usava como base, praticamente como único farol, um texto do Boris Schnaiderman, já que poucos, digamos, intelectuais e/ou ensaístas, de “peso” ou não, falaram sobre o livro. Na verdade, a maioria não gosta do livro, acha um erro na obra do Leminski, incluindo o próprio Leminski. E eu tinha decidido estudar aquele erro. Na época dividíamos a mesma casa: eu, Ademir Assunção e o grande músico e amigo Marquinhos Scolari. Veja vocês, um trio de torcedores do Santos. Lembro que fomos ao Morumbi, junto com o Edvaldo Santana, outro compañero santista, assistir ao primeiro jogo da final do campeonato paulista, Santos e São Paulo, da qual não quero lembrar. O time era ruim, mas achei legal ir. Fazia tanto tempo que o Santos tava “fora de catálogo” – tá, teve uma Commenbol, mas Commenbol não conta (deu até vergonha de mencioná-la aqui). Pelo menos tinha o Rincón, que era foda ver em estádio – incrível a lucidez com que ele se posicionava em campo. Aliás, não agüento: o gol do Ronaldo domingo, contra o Palmeiras. Caramba. Eu não me conformava em ver quase todos os comentaristas dizendo que tinha sido falha do goleiro. Tipo, SÓ isso. O jeito – e a rapidez – com que ele disse com o corpo e o pé direito que ia pra dentro, deixando a bola seguir sua trajetória original para apanhar/tocando-a com o pé esquerdo direto pro gol, é coisa de gênio. Posso até concordar com meu amigo Randall: se fosse o Marcos, a história “podia” ser outra. Sou fã do Marcos. Embora eu consiga vislumbrar que mesmo com o Marcos... Mas não era ele ali. Resultado: mais um lance pra antologia do Ronaldo nessa sua passagem pelo Corinthians. O primeiro foi a matada de bola no primeiro gol que ele fez contra meu time, que, diga-se de passagem, só perdeu aquela final por causa dele. O segundo dele naquele jogo, o de cobertura, foi lindo, claro. Mas a matada de bola – veja bem, não falo da continuidade, o gol, mas só da matada – foi brilhante. Mas eu tava falando do Boris Schnaiderman. Não lembro se foi só por conta do meu trabalho, acho que não. Acho que o Ademir – que era/é amigo dele – tinha algo pra falar com ele também. Enfim. Só sei que fui com o Ademir me encontrar com o homem. Que figura fantástica, que mestre. Passamos uma tarde deliciosa conversando e tomando vários chopes no Largo do Arouche. Lembro que uma hora um poeta passou vendendo seu trabalho. E o Boris comprou. Enquanto ele tirava o dinheiro da carteira, o cara perguntou, meio espantado, meio sem jeito: “Desculpa... mas você é o Boris Schnaiderman?”.

Ontem o Boris, e sua mulher, a Jerusa, que não tive o privilégio de conhecer, estiveram na abertura do Leminski no SESC Consolação. Estive lá à tarde pra ver a questão da luz que tenho que montar no sábado (programação completa abaixo), mas não pude ficar para a noite. Exercitei minha memória no texto acima por conta do que acabei de ler na espelunca do Ademir Assunção:
“Boris, pra mim, era uma figura lendária. É uma figura lendária. Nasceu na Rússia no ano da revolução bolchevique. Aos 8 anos viu a também lendária cena da escada do Encouraçado Potenkim, de Eisenstein, sendo filmada em frente a sua casa na cidade portuária de Odessa. Em seguida migrou para o Brasil. Tornou-se um dos grandes tradutores de Dostoievski, Tolstoi, Tchecov (a lista é longa) para o português-brasileiro. Lutou na Segunda Guerra Mundial, na campanha brasileira na Itália. Tornou-se amigo (e respeitado) dos grandes escritores brasileiros e de muitos de outros países. Cortázar, por exemplo”.
“Anos mais tarde, já morando em São Paulo, me tornei amigo dele. E de Jerusa Pires Ferreira, também grande ensaísta, figura requisitada em universidades da França, Israel, Canadá, Espanha, Estados Unidos, Rússia. Uma figura com uma história também lendária. Casada com Boris. Ambos poderiam ser dois intelectuais convencionais, nariz empinado, arrogantes. Nada. São duas figuras sensacionais. Uma conversa com eles, além de animadíssima, é sempre um banho de idéias”.
Ademir Assunção, texto todo aqui.
Escrito por marcelo montenegro às 19h38
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QUE VIVA LEMINSKI!

“No ano em que se completa 20 anos da morte de Paulo Leminski, uma edição do Projeto Outros Contextos apresenta vida e obra do poeta por meio de mesa de discussão, apresentação musical, leitura de poemas e ambientação, com consultoria de Ademir Assunção e direção de arte de Miguel Paladino. Participações de Boris Schnaiderman, Jerusa Pires Ferreira, José Miguel Wisnik, Neuza Pinheiro, Alice Ruiz, Mario Bortolotto e Áurea Leminski. Abertura 05/11, com debate e coquetel”. “O projeto Outros Contextos, do SESC Consolação, em novembro faz uma homenagem ao poeta curitibano Paulo Leminski. Iniciado pela unidade em agosto, Outros Contextos tem como objetivo incentivar a leitura de obras de importantes autores da literatura brasileira e universal”. OUTROS CONTEXTOS - QUE VIVA LEMINSKI! De 5/11 a 19/12, Grátis. Abertura> 05/11> 20h> Leminski em prosa, verso e música> Mesa de discussão a partir da vida e da obra do poeta curitibano, com os professores Boris Schnaiderman, Jerusa Pires Ferreira e José Miguel Wisnik> Mediação: Ademir Assunção> Sala Ômega, 8º andar> Lotação: 80 lugares. Distraídos Venceremos> 07/11> Sábado, 20h> Poemas de Leminski por Alice Ruiz, Mario Bortolotto, Ademir Assunção e Áurea Leminski> Espaço Beta, 3º andar> Lotação: 60 lugares. Profissão de Febre> 11/11> Quarta, 19h30> A cantora Neuza Pinheiro, acompanhada do músico Ronaldo Gama, apresenta parcerias com com Leminski, entre elas "Para umas noites que andam fazendo", "Filho de Santa Maria", "Idéia Brilhante", "Puro Espírito", "Sina que me brisa" e "Alma rasa"> Espaço de Leitura, 3º andar.
Uma palavra para Leminski> Dias 13 e 27/11> 16h> Narração do texto infanto-juvenil Guerra dentro da Gente, realizada pela contadora de histórias Kelly Orasi, do Núcleo Trecos e Cacarecos> Espaço de Leitura.
SESC Consolação> Rua Dr. Vila Nova, 245
Escrito por marcelo montenegro às 12h38
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